quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Profissão, Por Quê? Psicologia



Olá, amoralescx mais lindo e informado dessa internet. Hoje vamos falar com mais um profissional de psicologia e descobrir o que ele achou de cursar e quais os próximos passos dele. Sei que é um dos cursos que mais são procurados nas Universidades, então busquei mais opiniões. Vamos lá?


Profissão, Por Quê? Psicologia


Hoje em primeira mão trago o Psicólogo Rodrigo Fernandes Teixeira, 23 anos, Formado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande - FURG, Mestrando em Psicanálise Clinica e Cultura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS.



MVPA: Olá Rodrigo, nós do Minha Vida Por Acaso ficamos honrados em entrevista-lo. Em uma era repleta de mudanças, com quebras de paradigmas, e a impulsividade tomando conta da população, muitos se sentem pressionados a terem um diploma de ensino superior, outras se sentem obrigadas a terem qualquer diploma para que aquele pedaço de papel determine o que ele ou ela, será em sua vida profissional.
Como você percebeu que sua vocação é a Psicologia?

Rodrigo: Olá pessoal do Minha Vida Por Acaso, a honra é toda minha. A graduação em uma universidade acabou tornando-se algo meio protocolar de nos últimos 15 anos, principalmente pela facilidade de acesso que se garantiu a partir de políticas públicas. Isso é ótimo, pois qualifica a pessoa em uma expertise, aumenta as possibilidades de renda e colabora muito para a produção de conhecimento. Porém, tem que haver uma ponderação para que as pessoas compreendam o que de fato é uma graduação e o que realmente se deseja. A resposta para a pergunta é bastante curiosa, acho que colocando um pouco da minha história isso ficará claro. Eu não acredito em vocação! Na verdade tenho até certa ojeriza aos termos como “Dom”, como sendo algo natural, as coisas se desenvolvem na gente a partir de inúmeras formas e não creio em algo a priori. 

Eu terminei o ensino médio com 16 anos, nesse momento fiz o ENEM. Não tinha feito cursinho nem nada, não sabia o que queria fazer, mas sabia que tinha que fazer um curso superior. O ENEM foi em novembro ou outubro de 2012, eu acertei uma média boa de questões e, diferente do vestibular, pode-se escolher o curso para qual nos submeteremos após a prova. Nenhuma das opções me agradava muito, porém, eu tinha algo durante a minha adolescência que era enfatizado por alguns amigos: Tinha a estranha habilidade de ler eventos e conjunturas de modo com que parecesse que eu adivinhava coisas. 

Então isso me fez pensar “Hum, acho que isso pode ser legal em um curso como Psicologia” daí escolhi assim. Não teve glamour de sempre sonhar com isso, querer ajudar e salvar o mundo, foi algo bem mais pragmático, afinal, as decisões que tomamos com 16 anos não parecem depender de sonhos tão fixados que durem para uma vida toda. Acho que o grande barato da universidade é a experimentação da vida, aprender coisas novas, estar disposto a estudar e pesquisar muito. Mas claro, é uma versão muito subjetiva dos fatos.


MVPA
: A cada dia que passa, são descobertas novas patologias, claro que isso se torna inevitável com o avanço da medicina, porém quando falamos em psicologia, algo de cunho atemporal sobrevém em nossa mente. O Minha Vida Por Acaso por ser um blog que visa um multiculturalismo, aborda vários assuntos, um deles é o lado psicológico. Quem acompanha a Blogueira Paula Marcondes no seu Instagram (@minhavidaporacaso) já pode perceber que ela é fã do Canal FREAK TV onde seu criador de conteúdo (Milho Wonka) aborda assuntos criminais e traz em forma de entretenimento as “Mentes Diabólicas” das pessoas, desde os anos 1300 E.C.
Os problemas psíquicos não são novidade para ninguém, e bem sabemos que há históricos datados bem antes de 1.300, mas levando em consideração a evolução histórica da sociedade e juntamente seus distúrbios psicológicos, você acredita que o aumento de pacientes necessitando de apoio emocional seja um fator decisivo ao escolher a psicologia?


Rodrigo: Pessoalmente não creio que seja um fator determinante para a escolha, porém, é um fator que faz com que o saber psicológico se movimente. Isso também é algo que depende de muitas discussões, pois, veja bem, quando falamos em “Psicologia” não há um consenso teórico acerca do objeto ou acerca do sujeito e isso faz com que hajam conflitos, eventualmente, com o saber psiquiátrico. 

Eu sou da turma que é um pouco crítica a um excesso diagnóstico e do saber psiquiátrico como possibilidade de aprisionamento do corpo. Pode não parecer de início, mas essa discussão é extremamente importante e filosófica, afinal, a loucura é uma ausência de razão (no sentido dado por Descartes) ou uma razão outra? O Foucault vai entender que tem todo um processo de tratamento da loucura que vem num sentido de exclusão do sujeito que sofre, inicialmente recolhidos e levados para fora das cidades, depois colocados em asilos dentro das cidades, porém, isolados da mesma. Mas a loucura talvez seja um fenômeno mais extremo para pensarmos. 

Pensemos, então, nos DSM – Diagnostic and Statistic Manual of Mental Disorders. Se pararmos para olhar a quantidade de doenças psíquicas registradas no primeiro e no último (quinta versão) veremos que há um aumento significativo de quase 5 vezes. Alguns fatores são muito interessantes de pensarmos, por exemplo, até o DSM 2 a homoafetividade era considerada um transtorno, como explicamos isso? Hoje em dia parece uma insensatez dizer que a homoafetividade é uma doença (apesar de existirem pessoas querendo a cura gay), assim como parece uma insensatez enorme dizer que a histeria é causada pelo deslocamento do útero da mulher. Porém, a ampliação das categorias diagnósticas faz com que possamos desenvolver métodos e tratamentos para as mesmas, ao mesmo tempo que algumas categorias diagnósticas são criadas e a incidência de tais doenças chega a um nível muito alto. Por exemplo a síndrome de Burnout, a partir do momento da nomeação dela existe possibilidade para que se leve a sério os excessos de trabalho. Podemos pensar também algo como a bulimia, é uma área que não domino muito, mas tem algo que não fica claro sobre ela: ela é uma doença ou um sintoma de que algo vai muito mal? E acho que aí que está a chave para o trabalho na sociedade de hoje, onde há uma tendência muito forte à hipermedicalização e ao inchaço de diagnósticos, afinal, se qualquer um lesse o CID ou  o DSM, em quantas doenças se encaixaria?  A ideia é ouvir mais as pessoas e as narrativas e tirar um pouco desse excesso, limpar as chaminés, como diria Anna O. para  Breuer e Freud.

MPVA: Conforme você nos disse, seu mestrado é na área da psicanalise, visando seu domínio nessa área, é possível haver influencia direta por meio visual? Por exemplo: Filmes como Jogos Mortais, Sexta Feira 13, Brinquedo Assassino, podem vir a causar traumas psicológicos e influenciar o individuo a cometer crimes ou atitudes semelhantes à dos filmes/séries?


Rodrigo: Essa pergunta responde, também, o motivo pelo qual as respostas são longas e bem livremente associadas! Afinal minha base teórica é mais psicanalítica. Essa pergunta é bem interessante. Tenho um bom interesse pela área do cinema e, de início, acho que essa história de que filmes ou jogos incitam a violência uma certa balela. Acontece as vezes, mas a explicação não é a imagem em si. O cinema, ao meu ver, tem muito mais a ver com o desejo. Gosto muito de uma frase do Slavoj Zizek no filme “The pervert guide to cinema” que ele fala “O cinema é a mais perversa das artes, ela não dá o que você deseja, ela te ensina a desejar.” Isso é algo que considero muito forte, pois o que acontece na experiência cinematográfica é uma alienação à realidade externa, tanto que vemos quando um filme é bom quando ele nos captura de forma inteira. Essa ideia de que filmes muito violentos podem causar traumas ou promover a violência, a meu ver, servem muito mais como um argumento para a censura de ideias que não são bem-vindas socialmente, o Coringa lançado agora é um exemplo muito claro disso. 
A violência e o que será potencialmente traumático depende muito de fatores culturais, se pararmos para pensar em dois casos bem famosos como de John Lennon e Dimebag Darrell, ambos assassinados por fãs, vemos que nenhum deles possuía um discurso que incitava a violência, mas foram assassinados de forma brutal. Tem a história do efeito werther, mas isso diz muito mais da nossa inabilidade de lidar com o tema do suicídio do que do livro do Goethe e suas consequências na sociedade alemã. 
Eu acho que há uma dose de vouyerismo nesse nosso hábito de olhar programas ou filmes violentos, tem uma música chamada Vicarious de uma banda chamada Tool que descreve isso muito bem, há uma satisfação nossa consumindo esse tipo de produto e, talvez, essa realização na fantasia até impeça que isso seja posto em prática.

MVPA: Você teve alguma influência para especializar-se em Psicanalise?

Rodrigo: Tive bons encontros durante a graduação. Fora que estudando a psicanálise acabei percebendo que essa visão teórica dava conta do meu entendimento de mundo de uma forma bastante interessante. O que mais me fascina na psicanálise é que o centro de tudo está no não saber. Em alemão (língua mãe da psicanálise) inconsciente é o mesmo que “não sabido”, ou seja, o que importa é aquilo que estamos alheios mesmo. Isso é uma posição terrivelmente angustiante, pois faz com que as certezas sejam poucas, porém, é eticamente importante, pois nos coloca em uma posição de muito mais escuta e atenção. Mas a psicanálise é cheia de balelas também (rioso).



MVPA: Vamos para aquela pergunta que dissemina a maldade mental. Se fosse para escolher outra profissão, qual seria e por quê?

Rodrigo: Pra mim essa pergunta é meio simples até, pois gosto muito de muitas coisas. Acho que se perdesse minha licença ou tivesse meu diploma cassado viraria cozinheiro, tentaria fazer faculdade de gastronomia. Pois é algo que gosto muito de fazer e talvez até conseguisse ser minimamente razoável.

MVPA: Em um mercado abarrotado de “profissionais” ou podemos chamar de “individuo com um diploma na mão”, como se destacar no meio da multidão? Como ser um bom Profissional?

Rodrigo: Tendo boas redes de contato e se especializando. Não podemos pensar de forma muito generalista dentro da psicologia. Por exemplo, eu não trabalho muito com testagem psicológica, até sei aplicar alguns testes e sou apto para isso, porém, não é minha especialidade, me sentiria mais confortável ao me deparar com uma demanda assim de encaminhar para algum colega. Acho que a coisa é muito nesse sentido, desse feeling de saber o que se faz e principalmente o que não se faz. Um supervisor me deu uma dica uma vez que levo para a vida toda, ele disse: “Se tu não sabe o que fazer, não faz nada, assim não corre o risco de fazer coisa errada”.

MVPA: Sabemos que ser Psicólogo não significa ser militante, mas em seu ponto de vista, diante de tempos de euforia, o que você diria sobre as militâncias, há uma associação psicológica? Talvez a “militância” constante seja uma forma de auto aceitação, ou o processo de conscientização se confundiu com crises existenciais, onde é resolvido nas “redes sociais”?

Rodrigo: Acredito que a militância está alicerçada em movimentos indenitários. Acho que sempre foi um pouco assim, na verdade, as ondas nacionalistas, por exemplo, são sempre muito atreladas a uma noção indenitária de pertencimento, isso o Walter Benjamin já deixou muito claro no seu fragmento "Alemão bebe cerveja alemã!". Agora, a militância que se preocupa com o sofrimento relativo às minorias também se alicerça assim. Parte disso é muito importante, como a noção de lugar de fala. Isso coloca um aspecto fundamental sobre qualquer discussão, pegando o racismo, por exemplo, eu sou branco, não sou eu que tem que determinar o que é ou não racismo, é quem sofre. Porém, isso pode enveredar para um lado onde se hierarquize a fala e que não tenha como haver uma multiplicidade de vozes debatendo um tema. Ao mesmo tempo que eu não posso determinar a pauta racial, por exemplo (e nem desejo isso) acho importante que se possa participar de políticas para que se compreendam os fenômenos e que se combata o problema de forma estrutural. As redes sociais são um outro problema, na verdade eu não tenho uma opinião formada, mas sou pessimista, acho que existe, de fato, uma guerra híbrida em curso e isso colabora para o não engajamento e a desarticulação da militância social em geral.

MVPA: Você pretende aprofundar-se academicamente? Ou irá juntar o acadêmico com a parte clinica desde já?

Rodrigo: Essa é espinhosa! Na verdade eu não sei ainda.

Se tudo der errado, a Música te levará a outros horizontes caro amigo!


MVPA: Já estamos terminando Rodrigo, mais duas perguntas tá bem?
É comum as pessoas irem para a psicologia visando à parte financeira, autos ganhos. Qual é sua visão sobre isso?

Rodrigo: Acho respeitável. Tenho pavor aquela ideia de que devemos escolher uma profissão por amor, penso que devemos pensar num sentido de competência. Mas também penso que devemos pensar num sentido de compromisso social, ou seja, que o saber não sirva apenas para uma ideia de enriquecimento mas de melhora para a comunidade.

MVPA: Qual o conselho que você poderia deixar para os Amoralescxs do Minha Vida Por Acaso?

Rodrigo: Bebam água, experimentem comidas diversas, leiam Machado de Assis, vejam os filmes do Lars Von Trier e peguem leve.


Rodrigo, nós do Grupo Minha Vida Por Acaso agradecemos muito pela sua disposição em ceder essa entrevista, e esclarecer algumas dúvidas, principalmente nortear quem ainda está indeciso com a psicologia.
Desejamos-lhe todo o sucesso do mundo.

Abaixo seguem as formas mais práticas de entrar em contato com o Rodrigo:
Telefone para contato profissional: 53999368609

E-mail Profissional para contato: 
rodrigo.fds.t@gmail.com


E você o que achou dessa entrevista? Também sonha em ser psicólogo? Conta pra mim.

* Entrevista Elaborada por: @dihmarcondess em 22/10/2019

8 comentários

  1. Olha que entrevista bacana!
    Realmente entender a mente humana não deve ser muito fácil e exige uma grande compreensão primeiramente do seu EU e depois o do próximo.

    Devo dizer que o Milho é muito bom, ele deveria ser mais conhecido!

    Rodrigo, apesar de você falar coisas dificeis que usei o Google pra me explicar, eu consegui entender essa sua paixão pela psicanalise.
    Sucesso

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  2. oi!
    Parabéns pela entrevista :D acho muito interessante Psicologia, já pensei em fazer faculdade de Psicologia pois é muito bom poder ajudar as pessoas..

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  3. Psicologia um misto de sentimentos seria uma das minhas escolhas caso fosse para universidade estudei na escola e fiquei a adorar

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  4. Muito rica a entrevista com o Rodrigo! Ele parece ser um profissional bem sério e que sabe bem as ideias que defende! Acho isso singular! Mais uma entrevista agradável e cheia de bons conhecimentos!

    Um abraço!

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  5. Olá, tudo bem?

    Eu já tive vontade de cursar psicologia, mas isso foi uns três anos atrás e eu já tinha algumas formações. Eu adorei a publicação e entrevista, o Rodrigo parece ser um profissional competente.
    Abraço!

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  6. Sempre quis ser a área da psicologia por achar incrível, tem um leque gigante de oportunidade de carreiras! Mas acabei indo pra letras mesmo haha

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  7. Eu acho essa profissao linda! Eu fiquei na duvida de fazer psicologia ou arquitetura. Optei por arquitetura, mas penso em fazer psicologia um dia

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  8. Teve uma época que eu queria ser psicologa, mas não sei se eu daria conta, então acabei deixando pra lá mesmo hahahahaha
    Adorei o papo com ele! Muito competente e desejo muito sucesso na carreira!

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